Bombo a património

Património

A consciência do passado
é essencial aos indivíduos.
Tomando consciência das continuidades,
descobrindo um sentido ao presente,
podemos ter esperança no futuro.
Carlos Gravito, Os Bombos de Lavacolhos - Aspectos Rituais


Patrimonialização da Construção e Práticas Tradicionais Coletivas dos Bombos em Portugal 

Este projeto é desenvolvido pela Associação dos Amigos de Tocá Rufar em colaboração com INET-md Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança da FCSH – Universidade NOVA de Lisboa e do (INET-md) Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, das Câmaras Municipais do Seixal, Amarante, Fundão e Viana do Castelo e da Junta de Freguesia de Lavacolhos (Fundão), entre outras entidades. 


No Norte de Portugal bate um coração com pancadas regulares, fortes e solenes. São batidas que marcam os momentos importantes das comunidades: o São Gonçalo de Vila Nova de Gaia, o Senhor da Saúde de Lavacolhos, o Carvalhal de Souto da Casa, o Despique de Amarante, a Santa Luzia de Castelejo, a Nossa Senhora da Agonia de Viana do Castelo, o São João de Braga. A festa é um momento catártico da comunidade e nesta altura os tocadores são intérpretes experimentados duma tradição antiga, onde o bombo é o talismã e o encanto que a comunidade precisa para cada ritual de renovação.


As festas , em Portugal, batem ao ritmo dos bombos.
As comunidades reconhecem a Prática dos Bombos como algo fundamental em qualquer momento festivo, assim como uma forma de expressão que reflete os valores e as maneiras de ser e de estar. A construção dos instrumentos é local e artesanal, oficinas especializadas tratam das peles e da construção dos instrumentos e os próprios tocadores tratam dos pormenores fundamentais à execução, como o aperto das cordas ou a troca das peles. A vitalidade da prática é assegurada pelos numerosos tocadores, hoje em dia homens e mulheres, os quais perpetuam a tradição através de formas de tocar, transmitidas de geração em geração. Formas essas que possuem um amplo leque de significados para os tocadores e para as comunidades.

O congresso realizou-se no Seixal em 2018 (terra que há mais de vinte anos atrás deu à luz ao Tocá Rufar), para uma ocasião grandiosa: juntar todos os representantes dos grupos de bombos, todos os professores e investigadores e todos os autarcas que durante estes anos tocaram, construíram, gravaram, estudaram, apoiaram e de alguma forma participaram nos trabalhos de investigação e redação da Candidatura da Construção e Práticas Tradicionais Coletivas dos Bombos em Portugal às Listas representativas do Património Cultural Imaterial. Esta Candidatura é de todos e todas, o bombo é de todos e todas.


O Projeto de Patrimonialização da Construção e Práticas Tradicionais Coletivas dos Bombos em Portugal tem as suas raízes no I Congresso do Bombo, realizado na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, em 2015, onde foi levantada a necessidade de aprofundar o estudo da Prática dos Bombos em Portugal e de catalogar os grupos existentes, sendo estes um grande património reconhecido pelas comunidades, mas também pelos grupos e orquestras de percussão espalhados por todo o país. Foi assim que, em 2016, o Tocá Rufar deu início aos trabalhos de levantamento, pesquisa e caracterização da Prática dos Bombos em Portugal, para aprofundar as características da prática nas diferentes áreas do País.

O Projeto de Patrimonialização aqui apresentado, visa a inscrição da Prática na Matriz do Património Cultural e Imaterial (PCI), embora isso seja meramente o começo: de fato, o objetivo final é o da inscrição nas Listas Representativas do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO (Convenção para a Salvaguarda do Património Imaterial. Paris 17 de Outubro de 2003).

No âmbito dos trabalhos para a redação da candidatura nasceu o projeto Bombos de Portugal, que envolve a pesquisa e o contato com os tocadores tradicionais de bombo, com a finalidade de caracterizar os diferentes aspectos que a Prática adquire nas distintas áreas geográficas do Norte do País. Embora os confins geográficos e políticos por vezes não reflitam os confins culturais, é possível distinguir algumas áreas nas quais a Prática dos Bombos existe com características homogéneas (mapa de 1936): o Minho e o Douro Litoral, Trás-os-Montes e Alto Douro, Beira Alta, Beira Baixa. Todavia, como esta Prática ultrapassa os confins das áreas representativas supra-citadas em particular, após o nascimento do Tocá Rufar, em 1996, a área da pesquisa é de facto estendida para todo o território de Portugal Continental e Regiões Autónomas.

A primeira fase dos trabalhos realizou-se no Concelho do Fundão (2016 e 2017). Durante os trabalhos de pesquisa no Concelho do Fundão foram realizadas gravações de atuações dos grupos de bombos do Concelho, com particular destaque para a “Romaria de Santa Luzia”, em Castelejo (2016 e 2017), “Os Chocalhos” – Festival dos Caminhos de Transumância (2016) e as Festividades de “Santo Amaro e do Divino Espírito” em Lavacolhos (Janeiro e Maio de 2018). Foi ampliado o grande arquivo já existente com entrevistas de todos os Grupos de Bombos do Concelho atualmente em atividade, assim como com os construtores de bombos, caixas e pífaros: o “Américo” de Lavacolhos, o “Tó Nunes” de Alcongosta, o “Ti ́ Paulo” de Silvares e o falecido “Tio Joaquim” de Souto da Casa.

No seguimento desta experiência foram produzidos o documentário “A Moda do Bombo - Uma investigação sobre a tradição dos bombos no Concelho do Fundão” (Produzioni Clandestine, Tocá Rufar - 2016) e a tese “La Pratica del Bombo nel Concelho do Fundão (Beira Baixa, Portogallo)” defendida na Alma Mater – Universitá di Bologna em Março de 2018, por Giulia Maggiora.
No verão de 2017 foi a vez de Amarante onde foram realizadas diversas entrevistas aos dtentores da tradição dos “Zés P’reiras” amarantinos, ao construtor Alcino Silva e à família “César” da “Fábrica de Artesanato César”, fundada em Ermezinde, em 1943, por César dos Santos. Durante a estadia em Amarante acompanhamos as festividade de Julho, com particular enfoque no Despique de Bombos, momento catártico para os tocadores que dura a noite toda. Nesta altura foi realizado o documentário “Pôr a Caixa a Cantar – Uma investigação sobre a tradição do Bombo nos Concelhos de Amarante, Baião e Marco de Canaveses” (Produzioni Clandestine, Tocá Rufar - 2017).

No âmbito dos trabalhos do projecto Os Bombos de Portugal, surgiu o projeto BOM PORTO – Construção e Práticas Tradicionais Colectivas dos Bombos em Portugal, focado nos trabalhos de levantamento e caracterização dos grupos de bombos nas regiões da Beira Interior, Entre Douro e Minho e com vista à inscrição da Prática dos Bombos na Matriz do Património Cultural Imaterial (PCI), prevista para o IV Congresso do Bombo, em Novembro de 2018. Já em Janeiro de 2018, foi realizada uma reportagem áudio-visual sobre o Grupo de Bombos da Associação Recreativa “Os Mareantes do Rio Douro”, durante os festejos de São Gonçalo em Vila Nova de Gaia (Widescreen, Tocá Rufar).

Uma parte do projecto foi também realizada no verão de 2018 em Viana do Castelo e teve como finalidade a caracterização dos grupos de bombos ou Zés Pereiras que surgem neste distrito e que se envolvem nas atuações e nos cortejos com cabeçudos, gigantones e gaitas-de-foles ou outros instrumentos melódicos que vieram substituí-las. Tais grupos têm como festividades de referência a Festa de São João de Braga e um conjunto de festividades e romarias em Viana do Castelo, destacando-se as Romarias da Santa Marta do Portuzelo, da Nossa Senhora da Agonia e a Festa de São Bartolomeu. Foram ainda realizadas entrevistas com os membros dos grupos de bombos e Zés Pereiras dos concelhos de Viana do Castelo e de Braga e a gravação e captação de imagens das atuações no conjunto das festividades principais, as quais foram acrescidas ao arquivo já existente sobre a prática dos bombos em Portugal. Desta forma, foram gravadas as atuações dos “Zés P’reiras” durante a Festa de Santa Marta de Portuzelo, na Romaria da Nossa Senhora da Agonia em Viana do Castelo e as Festas de São Bartolomeu em Ponte da Barca (2016 e 2018).