O IV Congresso do Bombo

"O património cultural imaterial só o pode ser se for reconhecido como tal pelas comunidades, grupos ou indivíduos que o criam, mantêm e transmitem. Sem este reconhecimento, ninguém pode decidir por eles que uma expressão ou um uso determinado forma parte do seu património." [UNESCO, 2011] [#1]

O Património Cultural Imaterial, conforme definido pela UNESCO, manifesta-se entre outros domínios nas tradições e expressões orais, nas práticas sociais, nos rituais e eventos festivos, nos conhecimentos e práticas relacionados quer com a natureza quer com o universo. Apresenta-se assim como um vasto conjunto de manifestações e de expressões de carácter intangível e que têm a memória como meio de preservação e a oralidade como meio de transmissão. Surge então englobado no seio desta imaterialidade as lendas, os mitos, os contos populares, como igualmente os rituais e as festas, bem como todo o universo de saberes e vivências da cosmogonia popular.
 

Contrariamente ao designado património cultural material, o imaterial difere do primeiro relativamente aos seus suportes, de uma grande fragilidade e, em consequência, facilmente perecíveis. É neste sentido que a necessidade urgente em recuperá-los, recolhê-los e preservá-los, no âmbito de projetos como o da Área Metropolitana do Porto, acaba por ser determinante, tendo como objetivos a sua inventariação, o seu tratamento - referimo-nos em concreto a estudos interpretativos -, bem como a sua divulgação, determinantes para a memória coletiva e identidade de um grupo ou de uma sociedade.

[#1] UNESCO (2011). Infokit 2011, "What is Intangible Heritage?"

 

Porquê os Congressos do Bombo

Em Janeiro de 2016 e na sequência da realização do I Congresso do Bombo (2015) o Tocá Rufar deu início à preparação da candidatura da prática dos Bombos à Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade. (UNESCO - Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial - CONVENÇÃO 2003).

I Congresso do Bombo - 28/29 Novembro de 2015
Aula Magna, Lisboa.

II Congresso do Bombo - 25/26 Novembro de 2016
Casa do Bombo, Lavacolhos e A Moagem, Fundão.

III Congresso do Bombo - 24/25/26 Novembro 2017
Casa das Artes, Amarante.

IV Congresso do Bombo - 24/25 Novembro 2018
Fórum Cultural do Seixal, Seixal


E certamente não ficaremos por aqui, outros se seguirão...

Um forte abraço a todos os amantes da música, da tradição, e dos bombos.
Pode ainda consultar o nosso directório dos grupos de bombos em Portugal em BOMBOS DE PORTUGAL.

Bem-hajam,
Rui Júnior

Seixal
23/24/25
novembro
2018

Perspetivas de abordagem


Os Congressos do Bombo pretendem marcar um ponto de viragem no movimento das orquestras de percussão tradicional portuguesa assente em 3 determinações fundamentais. A primeira consiste na canalização do saber e das competências associados ao bombo português e à sua prática e viabilizar a sua difusão, a segunda em reafirmar os bombos tradicionais enquanto génese e razão deste movimento – impondo, de alguma forma, a enunciação dos elementos fundamentais deste património e a sua preservação - e, por fim, em reconsiderar o futuro artístico-cultural, educativo e económico deste movimento. (Maria Ceia)

 

A DIMENSÃO EDUCATIVA E PEDAGÓGICA

Integração das expressões culturais tradicionais nos sistemas educativos e de formação profissional; Formas inovadoras de ensino inspiradas na cultura tradicional;

Uma feliz metáfora de Michel Giacometti no seu livro "Cancioneiro Popular Português" reclama a presença de músicas "Do berço à cova", como algo que nos singulariza no mundo das espécies. Os instrumentos musicais permitem, à semelhança das ferramentas e artefactos criados para o que é de mais essencial  à vida, alargar as capacidades expressivas de todos os que têm a fortuna de os dominar.
As percussões, tocadas por amadores ou profissionais, são ensinadas em contextos formais e informais. Cada família necessita de técnicas específicas e de repertórios próprios que se caractarizam por uma constante inovação. Se considerarmos apenas os bombos, caixas e timbalões dos grupos de percussão popular portuguesa, encontramos a par de uma longa experiência de transmissão um apuramento técnico na execução musical e na construção. A todos se pode aplicar o que entendemos por Gesto musical: mobilização e domínio do corpo enquanto gerador de música. A sua aquisição consegue-se pela observação, imitação, experimentação e reinvenção, permitindo o desenvolvimento de capacidades vocais e corporais, o domínio de instrumentos,  o movimento e a dança.


Notas de reflexão por Maria Ceia | Directora Artística e Pedagógica do Tocá Rufar
Criar um contexto

Como agrupar os alunos? Por faixas etárias/ níveis musicais ou grupos heterogéneos com tocadores de várias idades e níveis? Ou são ambos necessárias? Como se pode criar um contexto que propicie o ensino e desenvolvimento do bombo tradicional e da sua linguagem? Como se fazia originalmente a transmissão oral da tradição e o que devemos reter desse método? Qual a pedagogia que melhor serve o bombo?
Qual a diferença entre trabalhar no meio rural e meio urbano? Existe diferença? Qual o vocabulário musical quando se fala da música tradicional? O que é partilhado com o jazz, o que é partilhado com a clássica e o que é único e particular?

 

A DIMENSÃO ARTÍSTICA E CULTURAL

Quem são os  compositores e os tocadores, os grupos tradicionais e as orquestras de percussão contemporâneas;

Notas de reflexão por Dr. Domingos Morais | Musicólogo A música que hoje ouvimos (e mais raramente fazemos), parece-nos talvez desligada de muitas das nobres funções e actividades que nos primórdios das comunidades humanas pontuavam a sobrevivência, a expansão lúdica e a vida ritual. A divisão operada no quotidiano da população activa entre tempo de trabalho e de não-trabalho, a par com a emergência de uma rentabilidade a todo o custo, afastaram-nos de vez de actividades que decorriam ao ritmo das estações do ano e dos ciclos próprios da recolecção, da caça, da agricultura, pecuária, pesca e artesanato. 

 

A DIMENSÃO EMPREENDEDORA

As unidades de produção de práticas artísticas; A construção de instrumentos artesanais; A oferta indústrial de instrumentos de série; O gosto de participar em grupos de percussão: o turismo cultural;  A música é em muitos países um criador de riqueza, contribuindo para o produto interno bruto e para a oferta de emprego em diferentes sectores de aplicação, dos específicamente musicais (ensino, espectáculos e edições) aos derivados pela quase universalidade da sua utilização em contextos lúdicos, comerciais, terapêuticos e identitários.

Notas de reflexão Economia à Chuva por Madalena Victorino | Coreógrafa
Como fazem os artistas que não estão protegidos pelo sistema, por uma instituição, por um contrato duradouro? Como criar e inventar fórmulas próprias e originais de economia independente para a realização dos seus projetos profissionais e pessoais? 

 

Objetivos


 

- Contribuir para a formação, valorização e qualificação das pessoas e organizações com intervenção no âmbito das artes populares e da percussão tradicional;

- Contribuir para a definição e implementação de políticas públicas nas áreas da cultura e da educação que promovam e valorizem as artes populares e tradicionais;

- Refletir sobre o fenómeno emergente dos grupos e orquestras de percussão criados um pouco por todo o país, tomando o TOCÁ RUFAR como referência ou exemplo, e contribuir para a criação de redes de cooperação que permitam promover e valorizar as artes populares, a percussão tradicional e o “bombo” enquanto instrumento icónico e de referência na identidade cultural do nosso país;

- Favorecer e estimular a cooperação internacional e o contacto com orquestras, compositores, tocadores, investigadores, projetos e organizações de outros países, contribuindo para a internacionalização e valorização da nossa cultura e dos projetos artísticos nacionais;

O congresso pretende articular a reflexão e a intervenção concreta e convocar a investigação, as ciências e os cientistas sociais, mas também as administrações públicas (central e local), os criadores, artistas e tocadores, os construtores de instrumentos (artesãos e empresas), os professores e educadores artísticos e os agentes culturais.